ENTREVISTA – Gabriel Thomaz fala sobre “O Futuro do Autoramas”

Postado por Descompasso em 14/07/2016, 15:25:00
Gabriel Thomaz/Divulgação

Gabriel Thomaz/Divulgação

Não precisa nem saber ler tarô para saber que “O Futuro do Autoramas” é o bicho. Comemorando 18 anos de estrada, a banda lançou em março, via plataformas digitais, seu primeiro álbum com um quarteto na formação que conta com Gabriel Thomaz (voz e guitarra), Érika Martins (voz, guitarra, teclado e percussão), Melvin (baixo e vocal) e Fred Castro (bateria).

“O Futuro do Autoramas” é o sexto álbum de estúdio do grupo e ganhou em maio suas versão em K7 e Vinil. E pense numa lindeza. Já estou tirando o meu walkman do fundo do armário para escutar esta maravilha. O Descompasso trocou uma ideia com Gabriel Thomaz sobre o futuro.

Que música está na sua cabeça neste momento?

Não sei porque…mas é What a Wonderful World na versão do Joey Ramone!

Fala um pouco do “O Futuro dos Autoramas”. O que este trabalho significa para você?

É o primeiro trabalho com a nova formação e marca o início de uma nova fase na banda, por isso o título. E também por outra razão. Entendi que a solução pra muitas coisas na trajetória do Autoramas seria exatamente olhar pro futuro. Continuar uma história, da qual tenho muito orgulho. A banda tem 18 anos e continuamos criando, fazendo coisas novas e com a vontade muito grande de fazer isso. já tenho o próximo disco quase todo já feito na cabeça, estou louco pra botar isso na roda, acho que esse é o espírito.

 

Autoramas - O Futuro do Autoramas (2016)

Autoramas – O Futuro do Autoramas (2016)

A arte deste disco é uma lindeza. Conta um pouco as referências, apresenta o Paulo Rocker. Você está feliz com o resultado?

Estou muito feliz com essa capa, ficou linda. Já tínhamos feito camisetas e outras artes com o Paulo, ele é de Brasília, meu conterrâneo, ele também toca numa grande banda, o Gramofocas. Conversei com ele sobre o início de uma ideia, ele captou tudo rapidamente e o resultado tá aí, tá muito legal.

Vamos conversar sobre o processo de produção. O álbum foi produzido pelo Autoramas e por Lê Almeida e masterizado e mixado por Jim Diamond, produtor de Detroit que já trabalhou com bandas como Sonics, White Stripes e Dirtbombs. Vocês escolheram o fino do fino. Como foram feitas estas conexões? Fariam de novo?

Jim Diamond nos viu tocar na França e me escreveu dizendo que queria trabalhar com a gente. Nunca fiquei tão feliz com um resultado sonoro quanto esse disco. O Lê Almeida foi uma escolha que fizemos pra músicas com uma determinada sonoridade que ele acertou em cheio, ele fez exatamente o que a gente queria. Ele é um músico e produtor de grande talento e que tem seu estilo muito bem definido, domina totalmente a parada.

 

Autoramas/Divulgação

Autoramas/Divulgação

Este é o primeiro disco que Érika Martins participa. Conta um pouco da chegada dela no Autoramas? O nome do disco tem a ver com esta nova parceria?

Na verdade, Érika já havia participado de muitas coisas com a gente, como nosso Desplugado e o Baú do Raul. Além disso já escrevemos uma infinidade de músicas juntas, tanto pra ela como pro Autoramas. E a maioria das músicas do Autoramas, ela foi a primeira pessoa a ouvir, antes mesmo de serem arranjadas, ensaiadas ou gravadas. Ou seja, por dentro ela sempre esteve. É um privilégio ter a Érika na banda, pois é a primeira vez que temos uma grande voz feminina, uma verdadeira cantora. Érika também é polivalente nos instrumentos, toca teclados, guitarra e percussão. era exatamente o que precisávamos.

Além do vinil, por que lançar o disco em K7 (por sinal, adorei a ideia)?

Acho o formato muito bonitinho e muito fofinho. Na verdade lá fora todo mundo faz e aqui o pessoal tá voltando a fazer. Fiquei muito feliz quando peguei a fita nas minhas mãos. Eu acabei de lançar um livro, Magnéticos 90, sobre a geração dos anos 90 que se lançou em K7, as chamadas fitas-demo.

E planos para turnê? Tem algum show programado para chegar aqui no Recife?

Ainda não! Aguardando convites ansiosamente, amo Recife. Estamos tocando o tempo inteiro, em outubro voltaremos pra Europa, coisa à beça rolando.

Você poderia falar um pouco dos maus hábitos dos integrantes do Autoramas em turnê?

Posso falar por mim: eu durmo pouquíssimo, chegamos na cidade, tento descansar, fazemos o show, fico muito bem depois do show e durmo pouquíssimo de novo antes de ir pra outra cidade. Chego em casa e durmo por dois dias. E ainda me entupo de refrigerantes esquisitos que consigo encontrar, não bebo mais coca-cola nem guaraná, só Jesus ou Tuchaua ou Magistral. O que me faz entrar em guerra com o médico, que me manda todo mês fazer exames para controlar os triglicerídeos (num sei se o nome é eese mesmo). Tá bom ou quer mais?

Qual é o momento perfeito para escutar “O futuro do Autoramas”?

AGORA!

*** O álbum “O Futuro do Autoramas” foi lançado em março via plataformas digitais e CD em abril. Aperta o play e vida longa ao Autoramas.

Aninha Martins, Fábio Trummer e Marco Polo falam dos discos de rock que mudaram suas vidas

Postado por Descompasso em 13/07/2016, 16:58:01
Aninha Martins/Renata Pires | Fábio Trummer/Bruno Guerra | Marco Polo/Divulgação

Aninha Martins/Renata Pires | Fábio Trummer/Bruno Guerra | Marco Polo/Divulgação

Seguimos nosso especial Dia Mundial do Rock com os discos que mudaram a vida de Aninha Martins, Fábio Trummer e Marco Polo. Só coisa fina viu!?

Começamos com Aninha que assim como Zé da Flauta também escolheu o disco de estreia do Led Zeppelin. Disco referência, inspiração e referência para a cantora.

“Com certeza o disco de rock que marcou a minha vida foi o “Led Zeppelin I”. Acho que eu tinha uns 14 anos, só tinha ouvido alguns discos aleatórios do Pink Floyd, isso porque meu pai era que ouvia e eu pegava o gancho, mas nada comparado ao Led Zeppelin I e o impacto que ele teve na minha vida. Eu, que não tinha a mínima ideia que podia cantar um dia, dava meus primeiros gritos (e bota grito nisso) cantando/gritando faixas como a “Communication Breakdown” (uma das minhas favoritas do disco), “Good Times Bad Times”, um aperreio pra minha mãe (risos). Eu me sentia o próprio Robert Plant quando cantava. (mais risos). Até hoje ele é uma das minhas grandes influências quando se trata de voz. A pegada blues também foi um dos pontos pontos principais. Era um misto de espanto e admiração que me segue até hoje, principalmente nas faixas ” You Shook Me”, “Dazed And Confused”. Ah, outra faixa que eu gosto muito desse álbum é a “Black Mountain Side”. Enfim, acho que é isso”.

Led Zeppelin - Led Zeppelin I (1969)

Led Zeppelin – Led Zeppelin I (1969)

O disco que mudou a vida de Fábio Trummer foi “Raw Power”,  clássico de Iggy and The Stooges. Motivo: “as guitarras sem controle, mixagens sem tecnicímos, vocal desafinados e a mais pura energia juvenil”, resume.

Iggy and The Stooges - Raw Power (1973)

Iggy and The Stooges – Raw Power (1973)

Marco Polo não consegue escolher apenas um.  “Dois discos de rock mudaram minha vida. O primeiro do The Beatles e o primeiro dos Rolling Stones que chegaram por aqui. E foram referência para minha banda, sim. O primeiro, pela musicalidade. O segundo, pela força” resume o vocalista da Ave Sangria.

The Rolling Stones - The Rolling Stones (1964)

The Rolling Stones – The Rolling Stones (1964)

Catatau, Sarah Falcão e Zé da Flauta respondem: qual foi o disco de rock que mudou a sua vida?

Postado por Descompasso em 13/07/2016, 14:43:53
Catatau/Divulgação Sarah Falcão/Divulgação Zé da Flauta/Divulgação

Catatau/Divulgação | Sarah Falcão/Divulgação | Zé da Flauta/Divulgação

Você consegue um especial de fino trato de clássicos juntando os discos de rock que mudaram a vida de Catatau, Sarah Falcão e Zé da Flauta. Trilha perfeita para comemorar o Dia Mundial de Rock. Confere aí:

The Cure com o velho na Capa foi o disco de rock que mudou a vida de Catatau.

“Um disco que mudou a minha vida foi aquela coletânea do The Cure com o velho na capa. O post punk era agressivo como o punk mas trazia a melancolia do gótico. Na época, eu que era adolescente, cheio de conflitos, me identifiquei total. Foi o primeiro disco do The Cure que ouvi e virou um clássico o disco da capa do velho”.

The Cure - Standing On A Beach/Staring At The Sea: The Singles (1986)

The Cure – Standing On A Beach/Staring At The Sea: The Singles (1986)

Acredito o disco da capa do velho que Catatau fala é o “Standing On A Beach/Staring At The Sea: The Singles” (1986). Baita disco. Abre logo com o clássico “Killing an Arab”.

Por que apenas um se podemos ter dois? Clássicos de Rita Lee e Smashing Pumpkins foram os escolhidos pela Dj Sarah Falcão.

“Existem dois discos que considero muito importantes. O primeiro foi o “Rita Lee em Bossa and Roll”. Eu tinha uns 6 anos e via a propaganda dele na TV – aquela mulher de cabelo vermelho com um violão era fascinante, parecia que tinha vindo de outro planeta. Foi o primeiro disco (fora coisas infantis) que pedi aos meus pais e tenho ele até hoje”.

Rita Lee - Em Bossa 'n Roll (1991)

Rita Lee – Em Bossa ‘n Roll (1991)

“Mais tarde, na adolescência, eu estudava violino e só queria saber de música clássica. Aí um dia peguei meu irmão ouvindo o “Mellon Collie and the Infinite Sadness” do Smashing Pumpkins e pirei. Tinha uns 13 ou 14 anos e achei aquilo incrível! Foi quando troquei Vivaldi por David Bowie”.

Como não pirar com um disco que tem “Tonight, Tonight”?

Zé da Flauta vai com um clássico que o influencia até hoje.

“Led Zeppelin I, primeiro álbum do grupo. Este disco mostrou pela primeira vez a possibilidade do rock se fundir com outras músicas, como a indiana, a clássica, enfim, com outros estilos. Isso me influência até hoje. Esse meu CD novo (Psicoativo) mostra bem isso”.

Led Zeppelin - Led Zeppelin I (1969)

Led Zeppelin – Led Zeppelin I (1969)

 

Robertinho de Recife responde: qual foi o disco de rock que mudou a sua vida?

Postado por Descompasso em 13/07/2016, 8:47:24

 

Robertinho de Recife/Hanah Khalil

Robertinho de Recife/Hanah Khalil

Para comemorar o Dia Internacional do Rock, celebrado nesta quarta, 13 de julho, convidamos músicos e Djs de respeito para responderem: qual foi o disco de rock que mudou a sua vida? O primeiro a responder foi o nosso Guitar Hero Robertinho de Recife, que ainda lançou um desafio.

“Foi “Electric Ladyland” de “Jimi Hendrix”. Morava ainda em Recife quando um amigo americano que me visitava levou e fiquei completamente impressionado com o som da guitarra na música “Still Raining, Still Dreaming”. O instrumento parecia falar, soando bem próximo do som da voz humana. A partir desse momento descobri que a guitarra não é um violão eletrificado. É um outro animal, detesto ouvir alguém tocando-a como violão e tratando o instrumento dessa forma. Devia existir uma lei contra esse absurdo. Quem me contesta aí?”

Alguém contesta o mestre aí?

No canal oficial de Jimi Hendrix no Youtube encontramos este Making Of de Electric Ladyland. Desfrute!

Alceu, 70 anos – até falamos de música

Postado por Descompasso em 11/07/2016, 14:54:51
Alceu Valença/Alceuvalenca.com

Alceu Valença/Alceuvalenca.com.br

“A responsabilidade do artista é manter-se fiel à sua arte”

“Meu pensamento é eminentemente político”

“Costumo dizer que eu sou um espelho do meu povo”

“Na minha opinião, um artista não deve ter ídolos. A partir do momento em que ele se inspira em outro artista, ele se torna carne de segunda”

Essas declarações foram garimpadas de uma longa e boa prosa com Alceu, pernambucano de São Bento do Una, agreste, que completou 70 anos no dia 1o de julho desse ano. 

Muito obrigado, mestre. Desfrute.

Alceu, você tem uma peculiaridade que raros artistas da música alcançam, de ser ídolo de crianças, idosos, pobres, ricos, sulistas, nordestinos… além do reconhecimento internacional. A que você deve isso?

Costumo dizer que eu sou como um espelho do meu povo. Eu me reflito nele e ele se reflete em mim. Creio que tenha a ver com o fato de eu ser um artista original, que jamais fiz concessão ao comercialismo barato, às imposições das gravadoras, aos caprichos do mercado. Minha arte é íntegra, verdadeira, devotada. Nunca abri mão das minhas convicções nem nunca deixei que pensassem por mim. Tenho total controle sobre minha obra, minhas escolhas estéticas. E sempre tive este compromisso com a música de Pernambuco, com a cultura do Nordeste. Eu sou eu e as minhas circunstâncias, como diria o filósofo Ortega y Gasset.

Você é considerado por muitos, quase consenso, como o principal artista popular pernambucano vivo, o que isso representa? Considera uma grande responsabilidade?

A responsabilidade do artista é manter-se fiel à sua arte. Esta sempre foi a minha tônica. É como eu dizia aos executivos das gravadoras quando estes vinham com fórmulas mirabolantes e duvidosas de vendagem: vocês precisam pensar mais nos pontos de vista do que nos pontos de venda. Nasci numa região muito próxima a de Luiz Gonzaga e assimilei diretamente na fonte os elementos que constituíram sua obra. Desde menino assistia aos cantadores, emboladores, coquistas, violeiros, cordelistas, nas feiras do interior. Depois, por volta dos 8 anos, minha família mudou-se para Recife e eu pude assimilar a cultura da zona da mata e do litoral. Foi aí que o frevo e o maracatu entraram na minha vida e passaram a integrar minhas referências artísticas. Digo que, enquanto existirem fronteiras, eu sou, antes de tudo, são bentense. Depois sou pernambucano, agrestino, nordestino, brasileiro. E por isso mesmo sou um ser planetário.

Alceu Valença/Arquivo Pessoal

Alceu Valença/Arquivo Pessoal

A cabeça de um homem de 70 anos, no seu caso, é mais jovem que a de um homem de 20? É nítido que você continua sendo um artista criativo inquieto e que nunca abandonou a estrada. 

AV – Sinto-me como se tivesse sete anos de idade. É setenta invertido (risos). Me cuido muito, caminho todos os dias, não fumo nem bebo, mantenho uma alimentação equilibrada e alcalina. Para você ter uma ideia, quando fomos gravar o DVD Vivo! Revivo! (sai em setembro pela gravadora Deck), no ano passado, eu usei a mesma roupa do show original, realizado em 1976! E ela coube perfeitamente, nem um quilo a mais. Outro fator que me rejuvenesce é o palco. Toda vez que estou nele volto a ser o menino de São Bento do Una que, aos seis anos, subia para dar cambalhotas no palco do Cine Rex. Já combinei com Deus que vou viver até os 140 anos, sempre em cima do palco. Pode apostar.

Você sente vontade de modificar letras já consolidadas?

Antes de ser cantor e compositor, sou poeta. Recentemente, lancei um livro de poemas (“O Poeta da Madrugada”, editora Chiado) onde incluo diversas letras de canções que funcionam como poesia independente da música. É raro acontecer de eu renegar algum verso que tenha escrito no passado. Às vezes implico um pouco com “a fumaça do cigarro” da letra de “Sete Desejos”, porque parei de fumar (risos). Ou com o tom um tanto pessimista da letra de “Andar, Andar”, porque sigo acreditando no potencial e no futuro do Brasil. Fiz uma pequena modificação nos versos de “Flor de Tangerina”, que está novela Velho Chico, a pedido do diretor Luiz Fernando Carvalho, para que a letra estivesse em sintonia com a trama. Mas foi pouca coisa, nada que descaracterizasse a força poética da canção.

Você é influenciado por Gonzaga e Jackson. Você concorda que Jackson do Pandeiro é um artista muito citado e pouco visitado? Fora os dois, que mais influenciou sua personalidade musical?

Jackson e Gonzaga são influências, mas não chegam a ser ídolos. Na minha opinião, um artista não deve ter ídolos. A partir do momento em que ele se inspira em outro artista, ele se torna carne de segunda. Certa vez, há muitos anos, perguntei ao Hermeto Paschoal o que ele costumava escutar em casa. Ele me disse: nada, para não me influenciar (risos). Eu sou um pouco assim também. Quando fui fazer meu filme (“A Luneta do Tempo”), tomei algumas aulas básicas sobre roteiro, sobre a linguagem do cinema. Quando percebi que já estava mais familiarizado com o tema, abandonei as aulas para não ficar influenciado por este ou aquele diretor. Com a música acontece algo semelhante. Sobre Jackson, ao lado de quem cantei em dois festivais (no FIC de 1972, com “Papagaio do Futuro” e no Festival da TV Tupi, com “Coração Bobo”, em 1979) e em uma série de shows para o Projeto Pixinguinha (em 1978), é um grande mestre. Ele dizia: “para cantar frevo, tem que ter queixada”. Me incentivou a cantar o gênero e me ajudou a descobrir que eu tinha queixada, ou seja, a capacidade de articular bem as palavras num gênero tão sincopado e acelerado como o frevo. Já Gonzaga foi um dos primeiros a elogiar meu trabalho: “é uma banda de pife elétrico”, ele dizia.

Seu filme “Luneta do Tempo” é pura poesia, você sentia a necessidade de contar de uma forma diferente parte da história do cangaço. O filme tem movimentos de câmera modernos e e fotografia impecável, você tomou a iniciativa de estudar roteiro e mergulhar no universo do cinema. Pegou o gosto? Já tem novos projetos engatilhados? 

Costumo diferenciar arte de entretenimento. É claro que o cinema também é diversão, mas acredito numa arte que aprofunde questões, suscite debates, emocione as pessoas. Minha arte sempre se aproxima da reflexão, seja na música, na poesia, agora no cinema. É uma arte espontânea de um criador que não vai pela cabeça de ninguém. Foram 14 anos trabalhando neste filme, desde a elaboração do roteiro até as duas etapas da filmagem (em 2009 e 2011), passando pela direção,  montagem e a finalização. O filme tem um país político também, a partir do momento em que ele questiona o papel mítico de Lampião. É uma visão diferente das apresentadas anteriormente sobre o mito de Virgulino. E escolhi um viés lírico, poético, mais ainda assim político. Vislumbro um Lampião onírico que não conseguiu superar as dores do mundo mesmo depois de morto. Sou de uma geração que vivenciou e debateu política ativamente. Meu pensamento é eminentemente político. É uma abordagem completamente diferente de todas as que já se fez sobre o cangaço. Acho que o filme toca sobretudo os amantes da arte. Não sou pelo entretenimento fácil, mas pela arte verdadeira. As pessoas me incentivam a filmar novamente, mas eu mesmo não tenho certeza. Quando me proponho a fazer algo, aquilo se torna quase como uma obsessão para mim. Se aparecer um projeto que me envolva tanto quanto a Luneta, quem sabe?

Alceu Valença/Alceuvalenca.com.br

Alceu Valença/Alceuvalenca.com.br

Como você avalia o momento político brasileiro? Você vê esperança na juventude que não abre mão de direitos? Você percebe um avanço reacionário no mundo ou acha que é um movimento cíclico? Que recado você daria para o povo brasileiro?

Há alguns dias publiquei um texto no Facebook que resume meu sentimento sobre a crise política em que o país está mergulhado, bem como as oportunidades que podem surgir daí. Vou reproduzir ele aqui pra você:

“Demorei bastante para me manifestar sobre a gravidade de nossas questões políticas. Sou elétrico de nascença, mas devido à complexidade dos fatos e da necessidade de uma análise mais consistente, caminhei com muito cuidado, fazendo pausas para reflexões a observar, com prudência, os fatos que vêm se revelando dia após dia. Esse processo doido continua ativo e muita história ainda será vomitada, mas, hoje, já tenho meu diagnóstico. Aliás, há muito já discutia sobre a necessidade de uma ampla reforma estrutural e política. As regras que conduzem as eleições no país favorecem a corrupção, desvirtuam e desmoralizam a nossa jovem e imatura democracia. As legendas, com raríssimas exceções, estão comprometidas do pé ao pescoço, da razão até a alma, e vitaminam a plutocracia instituída no Brasil. Não existe saída. Capital, dinheiro não têm ideologia. Sua gula desenfreada é crescer e ganhar sempre mais. É irracional. Não é bom, nem ruim.
Pensamos, logo existimos, não é verdade? O pensamento, os valores deveriam ser protagonistas e não o dinheiro. É tão claro, lógico e insofismável. Um empresário pode até simpatizar com um político pelo programa do partido ao qual ele pertence. Poderia dar contribuições nas respectivas campanhas públicas. Mas, simpatia de 10, 20 milhões de reais? No fundo, é um investimento ou um fundo de investimento? Depois virão obras, muitas vezes superfaturadas, para devolver e multiplicar o que fora “doado”. O político bem relacionado no “high society”, certamente, gozará de melhores oportunidades para se eleger.

A democracia já começa marcada pela desigualdade.

É o troco,
é a troca,
é o trocado,
é o truque do dinheiro doado
ou investido?
É o sistema corrompendo
o indivíduo.
É a sangria desatada.
Bandidos.

As reformas não devem se restringir apenas `a questão do financiamento das campanhas. Já demos alguns passos favoráveis com o fim da reeleição, que se mostrou prejudicial à dinâmica da gestão pública. Mas outras questões devem ser levantadas e amplamente discutidas. Penso também na urgência de uma reorganização estrutural, na desburocratização responsável, na agilidade e eficiência da máquina pública.
É preciso regulamentar a mídia com muita, muita prudência para não sufocar a liberdade de expressão.
É preciso priorizar a cultura brasileira sem, contudo, nos fecharmos para o mundo globalizado. Somos seres planetários, mas, por enquanto, ainda existem fronteiras, barreiras culturais e econômicas. Precisamos cuidar do que é nosso.
É preciso ter uma economia eficiente, mas que observe as questões sociais que se arrastam há séculos.
É preciso caminharmos adiante e progredir, respeitando a natureza e implementando o desenvolvimento sustentável.
É preciso mais tolerância.
É preciso entender que só a diversidade é capaz de promover o desenvolvimento da nossa sociedade.
É preciso respeitar as diferenças.
É preciso mais solidariedade e mais união.
Finalizando, se quiserem ir às ruas exigir as reformas necessárias para o fortalecimento real do nosso país, me avisem. Estarei junto!”

Um livro que você indica?

“Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, é uma leitura marcante para mim. Em 1979 eu me sentia desincompatibilizado com as gravadoras e fui morar um ano em Paris. Lá, me embrenhei na biblioteca de um amigo, que possuía toda a obra de Freyre. Este contato mais profundo com seus livros me impulsionou a mergulhar nas minhas próprias origens e me influenciou a compor “Coração Bobo”, que se tornou meu primeiro grande sucesso nacional. Indico ainda o meu livro de poemas, “O Poeta da Madrugada” e o livro “Por Trás da Luneta”, de Julio Moura, sobre os bastidores da filmagem da “Luneta do Tempo”. Ambos saíram em 2015 pela editora portuguesa Chiado. E indico Fernando Pessoa, sempre.

Luneta do Tempo/Divulgação

Luneta do Tempo/Divulgação

Um filme?

Indico a “Luneta do Tempo” mesmo, pelos motivos que falei acima. Cito também filmes de Claudio Assis (“Amarelo Manga”), Lirio Ferreira (“Árido Movie”) e Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”), integrantes desta geração talentosíssima de Recife que modificou a maneira de se pensar e fazer cinema no Brasil. Dentre os estrangeiros, dois filmes que me marcaram foram “A Noite Americana”, de François Truffaut, com Jacqueline Bisset, lindíssima; e “Acossado”, de Godard, com Jean Seiberg e Jean Pierre Belmondo. Na época de adolescente, eu me achava feio e desajeitado com as mulheres. Quando Belmondo surgiu, todo mundo me achava parecido com ele e isso melhorou meu status e minha autoestima. Na saída das sessões do filme, no Cinema São Luiz, chegava a imitá-lo, passando o polegar sobre os lábios, como ele fazia em “Acossado”. As mocinhas deliravam (risos).

Para quando podemos esperar um novo disco de músicas inéditas?

Tenho gravado alguns singles. Gravei o “Frevo da Lua”, que depois entrou no álbum “Amigo da Arte”. Gravei uma música chamada “Quando o Amor vai Embora”, lançada como single digital pela Deck. Ela originalmente estava na trilha da “Luneta do Tempo”, mas acabou ficando fora do filme. Há dois anos gravei “Sala de Reboco”, do repertório de Luiz Gonzaga, em dueto com a Lucy Alves (clipe). Agora recriei “Flor de Tangerina” para a trilha de Velho Chico e também gravei “Moça Bonita”, de Geraldo Azevedo e Capinam, para a trilha da novela. Quem sabe não faço mais algumas e reúno todas elas em um novo disco? É uma ideia. O problema é que, com honrosas exceções, as rádios não tocam mais música brasileira. Só se fala em playlist, quase sempre para tocar enlatados americanos. O Brasil precisa urgentemente redescobrir sua trilha sonora.

Só podemos dizer, vida longa Alceu!

Aperta o play: Barro lança “Ficamos Assim”

Postado por Descompasso em 10/07/2016, 16:08:19
Barro/Louise Vas

Barro/Louise Vas

Depois de “Vai”, single com uma pegada breguinha e dançante, o pernambucano Barro apresenta a segunda canção de “Miocárdio”, a balada eletrônica “Ficamos Assim”.  “Esta música surgiu quando estava dirigindo. Foi assim que veio a melodia. Já a letra é uma reflexão das relações que criamos na noite, relações rápidas. Você acaba criando um um contato tão próximo e instenso com a pessoa, mas é tudo tão efêmero e passa tão rápido”, comenta Filipe Barro.

O paulista Gui Amabis, que assina a produção do disco, também toca teclados e samplers ao lado de Barro que comanda os vocais e toca guitarra nesta faixa. “A ideia inicial era trazer um ritmo mais frenético a canção, quase um frevo. Na produção, Gui sugeriu deixá-la mais calma. Ele se inspirou no hip hop dos anos 90, algo meio Jurassic 5”, revela Barro.  “Ficamos Assim” tem um tom nostálgico, resultado de um fino trabalho de samplers de vinil. “Uma coisa que acho bem massa, bem bonito, são os arranjos que Gui sampleou de metais e cordas. São todos samplers de vinil que ele vai colocando”.

Com esta canção, Barro já deixa claro também a temática do disco. “Miocárdio é sobre afetos. Sobre a necessidade de ir. “Ficamos Assim” é sobre isso. No disco também tem uma música que fala sobre poliamor”. Para Barro, “a hora perfeita de escutar “Ficamos Assim” seria no fim da tarde, com sol baixando, pegando a estrada”.

Este single ganhou um lyric video lançado no canal oficial de Barro no YouTube com produção e animações de William Paiva em cima das ilustrações do artista Laurindo Feliciano, que assina a identidade visual de “Miocárdio”.

Miocárdio está previsto para agosto deste ano, em versão digital e CD, e além do produtor produtor paulistano, conta também com Dengue (Nação Zumbi) no baixo, Rogério Samico (guitarra) e Ricardo Fraga (bateria). Está marcado para esta quinta, 14, uma prévia ao vivo do disco no Capibar, Poço da Panela. Mais informações da apresentação e do disco no site de Barro.

 

 

 

Pera, uva, maçã ou salada mista? Uma conversa com Tássia Reis sobre música e seu show no Recife com uma baita Salada das Frutas.

Postado por Descompasso em 01/07/2016, 15:13:18
tassia.SantiagoCarlucci

Tássia Reis/Foto: Santiago Carlucci

Neste domingo, 03 de julho, o Cataraman vai ficar mais colorido e divertido. É o dia do Festival Salada de Frutas, que usa a música como instrumento de mudança social. No line up, as bandas Liniker e os Caramelows (que abalou as estruturas no Rec-Beat 2016), As Bahias e a Cozinha Mineira e a cantora Tássia Reis. A noite ainda conta com as batidas tropicais do Dj Patricktør4.
 
Para o esquente da festa, conversamos com a rapper paulistana Tássia Reis, de Jacareí, sobre suas expectativas para a sua primeira apresentação no Recife. Falamos também de vida e inspiração. #Tamojunto.
 
Tássia, tem algum artista pernambucano que você gosta e recomenda?
 
 
Sim, curto muito o som do Mundo Livre S/A, do Otto e da Karina Buhr. Pernambuco tem diversos artistas conhecidos por sua originalidade, são incríveis e com personalidade.
 
Conta pra gente quais artistas que mais influenciaram sua formação musical e performance de palco?
 
 
Minha formação musical é baseada no que apendia ouvir e amar com meus pais, que é o Soul, o Samba a música brasileira, e também o que Hiphop me mostrou quando ainda era uma dançarina de danças urbanas. Nesse meio tempo, fui me interessando pelo Jazz e variações, e também pelo Neo-Soul, e aí foi chegando as novidades e eu também adoro pesquisar. Já a minha performance é bem solta, gosto muito de como a Diva Erykah Badu conduz seu show, ela é demais!
 
 
E o teu processo de composição? O que te inspira na hora de compor?
 
 
Eu costumo dizer que a Inspiração é um estado de espírito, quando acessado, garante que qualquer situação seja motivo. Assim passeio por vários processos criativos, já comecei pela letra, já comecei pela melodia, geralmente vem tudo junto. Pode demorar meses, ou 25 minutos, é inexplicável e delicioso.
 
Por muito tempo a MPB teve compositores que faziam músicas engajadas, especialmente no período da ditadura militar. Já na década de 90 quase não se ouviu exceto pelo rap. Seria uma nova tendência músicas de cunho político?
 
 
Não acredito em “Tendências” de escrita quando o lance é música, nós refletimos o momento político, social e econômico também. É tão natural como uma conversa de bar, claro que as pessoas tem a possibilidade de embarcar em certas questões ou modismos, mas pra mim, é fundamental falar daquilo que estou afogada, seja amor, seja luta.
 
 
Você acredita em uma nova geração mais consciente dos direitos humanos e intolerante aos preconceitos de uma maneira geral?
 
 
Temos muitas questões urgentes a serem debatidas e enfrentadas de frente, como por exemplo o genocídio da juventude negra por conta do Estado, a cultura do estrupo que implica em diversas coisas e muitas outras pautas. Fico feliz que a internet amplie o debate, porém ainda precisamos avançar muito em conjunto .
 
 
Você poderia indicar um livro?
 
 
“Sejamos Todos Feministas ” -¬ Chimamanda Ngozi Adichie
 
 
E um filme?
 
 
“Kbela”, direção Yasmin Thayná
 
 
E bandas que precisam ser escutadas?
 
Janine Mathias, Aláfia, D’origem, Oshun NYC, Robert Glasper, Alabama Shakes…   
 

 

Vamos falar um pouquinho do show de Recife. Você vem com banda completa ao Recife?

 

Sim, minha formação Oficial é com a #EquipeLacry: Dj 3D, Lívia Mafrika nos backings vocals e eu.

 

Que músicas não podem faltar no seu show? O que podemos esperar?

 

Não pode faltar o ” Meu Rapjazz” e a “No SeuRadinho também é uma pedida. Digo apenas que estamos animadíssimas para realizar essa grande celebração que é o Salada Das Frutas, Amém Deusas <3

 

Serviço:

 

Evento: Salada das Frutas com Liniker e os Caramelows + As Bahias e a Cozinha Mineira + Tássia Reis e o DJ Patricktør4
Quando: Domingo (03 de julho)
Onde: Catamaran Tours (abertura da casa: 16h)
Ingressos: 1º lote: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia)/ 2º lote: R$50,00 (inteira) e R$25,00 (meia)
Vendas online. 

Aperta o play: Academia da Berlinda lança Nada Sem Ela

Postado por Descompasso em 01/07/2016, 15:04:22

Academia da Berlinda/Divulgação

Julho de 2016 começou com o pé direito! Além de comemorarmos os 70 anos de carreira do Mestre Alceu, a Academia da Berlinda acabou de deixar esta sexta, 01 de julho, mais suingada e requebrada com o lançamento de Nada Sem Ela. A super banda de Olinda ainda de quebra deixou a música livre pra baixar ou pra escutar online.

Cuidado: Nada Sem Ela vicia e já está no nosso repeat! Escute.

Por que você deveria conhecer a Macuca? Isaar responde.

Postado por Descompasso em 23/06/2016, 10:38:44
Isaar/Divulgação

Isaar/Divulgação

Nesta quinta, 23, Zé da Macuca abre as portas de seu sítio, em Correntes, Agreste Pernambucano, para uma grande festa junina que vai até domingo, 25. Há 27 anos que o capitão faz isso. O São João da Macuca recebe seus visitantes com música, cortejo, roda de poesia, intervenções artísticas e acampamento, mantendo viva a tradição junina no interior do Estado. Quem já foi sabe que a festança é boa. Atração da edição 2015, Isaar compartilha sua experiência e deixa aquela vontade de arrumar a mala e pegar a estrada.

“Ir a Macuca já é uma experiência sensorial incrível. Principalmente para quem vive no corre corre da vida urbana. Então a própria viagem já é o inicio do desligamento. Depois vem o contato com a natureza e a sensação de liberdade. Em seguida você se depara com pessoas que buscam uma sintonia semelhante com a própria natureza. A boa musica que celebra tudo isso. A descontração de poder acampar em grupo e por fim, o banho de água corrente além do friozinho que é um charme a mais para o lugar”.

Macuca/Divulgação

Macuca/Divulgação

Bateu a vontade de pegar a estrada? Então, anota o serviço que esta edição conta com Quarteto Olinda, Conjunto Bole-Bole, Forrólindense, Edmílson do Pífano, Didi Caxiado, além da magia do local.

 

Serviço:

 

São João da Macuca 2016

Sítio Macuca – 23 a 25/06

Informações: (81) 98810-0755

Classificação: 18 anos. Obrigatória a apresentação de documento oficial com foto.

 

Programação:

23/06

Salão da Macuca:

21h Forró de Sanfona com Didi Caxiado

 

24/06

Salão da Macuca:

21h Edmílson do Pífano

23h Forrólindense

 

25/06

Baixa Grande:

12h Cortejo do Boi da Macuca com a Orquestra do Maestro Oséas

Salão da Macuca:

19h Conjunto Bole-Bole

22h Quarteto Olinda

 

Ingressos:

Venda somente pelo Eventick:

Pacote = Meia R$ 100 / Social R$ 120 / Inteira R$ 200
Dia 23/06 = Meia R$ 30 / Social R$ 40 / Inteira R$ 60
Dia 24/06 = Meia R$ 40 / Social R$ 50 / Inteira R$ 80
Dia 25/06 = Meia R$ 50 / Social R$ 60 / Inteira R$ 100

* Para validar o ingresso social, basta levar 1 kg de alimento não perecível no dia do evento.
* A comprovação da meia-entrada será exigida na entrada do evento.
* Nenhum tipo de ingresso inclui acampamento.
* A depender da disponibilidade, haverá venda física na bilheteria nos dias da festa.

Muito prazer! Bem-vindo ao Descompasso.

Postado por Descompasso em 23/06/2016, 10:35:42

Papo aberto sobre música brasileira. Esta é a ideia deste espaço que quer se atrever a falar sobre o que há de inspirador, original e expressivo na nossa música. É um atrevimento dos grandes porque falar de música em tempos acelerados não é uma tarefa fácil. E isso dá um frio danado na barriga.

 

Este blog será escrito por 4 mãos e também com a colaboração de convidados que fazem ruído. Queremos trazer entrevistas inspiradoras, playlists, recomendações, bastidores, relatos, experiências. A nossa principal contribuição será nosso compromisso com o conteúdo, com curadoria.

 

É isso. Baseado em afetos reais, nasce o Descompasso. Seja bem-vindo.

 

*** estas linhas foram escritas com Chico Buarque com Apesar de Você no play.